Recall: o fabricante é obrigado a chamar, mas o dono pode ignorar?
Por Sérgio Brandalise · Publicado em · Atualizado em

Respondendo de forma curta: quem carrega a obrigação principal é a montadora. Segundo o artigo 10 do CDC, a lei do consumidor de número 8.078, de 1990, a empresa que percebe, depois da venda, que um produto representa risco precisa informar o mercado e resolver o defeito por conta própria.
A resposta longa interessa mais a quem está com o carro na garagem. Desde 2021, uma convocação deixada de lado tem consequência prática sobre a documentação, e a carta que chega pelo correio deixou de ser só um aviso educado.
Ninguém paga e o direito não caduca
Peças e mão de obra de um recall são gratuitas para o proprietário. Cobrança de taxa de vistoria prévia, de avaliação ou de deslocamento, nesse caso, não tem respaldo.
Também não existe data de expiração. O direito está ligado ao veículo, e não à pessoa que o comprou zero-quilômetro: o atual dono pode exigir o reparo mesmo que o carro já tenha trocado de mãos várias vezes.
O prazo que às vezes aparece no comunicado serve para a concessionária organizar estoque de peças e agenda de oficina. Passado esse prazo, o direito continua inteiro.
O que a lei de 2020 mudou na prática
A Lei 14.071/2020, em vigor desde 12 de abril de 2021, acrescentou ao CTB, no artigo 131, dois parágrafos novos. Por eles, quando um ano se completa desde a comunicação sem que o carro tenha ido ao conserto, o documento anual do veículo ganha uma anotação de pendência.
A partir dessa anotação, a regularização do ano só se completa quando o dono demonstra que o conserto foi feito. Meses depois, a Lei 14.229/2021 delimitou o alcance da regra: ela só vale para convocações abertas desde 1º de outubro de 2019.
Resultado: o recall segue sendo um direito do consumidor, só que agora com efeito sobre a papelada do ano. E a regra trata igualmente um parafuso mal apertado no banco e uma falha no airbag, porque qualquer campanha pendente é anotada.
Onde descobrir se o seu carro foi convocado
A pesquisa usa o número do chassi, também chamado de VIN, uma sequência de 17 letras e números. Ele aparece no documento do carro, numa etiqueta colada na coluna da porta e gravado na própria estrutura do veículo. Com esse número, tanto a página do fabricante quanto os canais de atendimento ao consumidor mantidos pelo poder público indicam se há convocação aberta.
Modelo e ano, sozinhos, não resolvem. As convocações costumam pegar intervalos de numeração de série, então dois carros iguais, saídos da fábrica no mesmo mês, podem estar em situações opostas.
Três razões para tanta campanha esquecida
A primeira é a correspondência: o aviso chega com cara de mala direta e vai parar no lixo. A segunda é o cadastro desatualizado, já que depois de uma venda a montadora continua escrevendo para o endereço do antigo dono. Por último, o defeito não incomoda, e o que não incomoda raramente vira prioridade.
Esse terceiro motivo é o que mais preocupa, porque falha escondida só se revela quando a peça é exigida de verdade. Um airbag ou um mecanismo do cinto de segurança pode passar dez anos parado e ser chamado a funcionar uma única vez, numa batida.
Recall não é revisão nem garantia
Revisão é a manutenção periódica que o dono paga para conservar o veículo. Garantia é a cobertura contratual contra defeito de fabricação, válida por um período definido. Recall pertence a outra categoria: é uma convocação de segurança, gratuita e sem data final, que segue valendo mesmo depois que a garantia termina.
O histórico de oficina também não interfere. Um carro que sempre foi cuidado por mecânico independente tem o mesmo direito ao reparo, que é feito na rede autorizada da marca.
Comprando usado: o recall como termômetro
Pesquisar o chassi antes de fechar negócio toma uns poucos minutos. Encontrar uma campanha aberta não é motivo para desistir, mas o ideal é que o reparo aconteça antes do próximo documento anual.
A pendência ainda serve de pista sobre o antigo proprietário. Quem ignorou por anos uma convocação de segurança talvez tenha adiado também trocas de fluido, correias e pastilhas que não se veem num test-drive.
O reparo pode ser marcado em qualquer concessionária da marca, onde costumam pedir o documento do veículo e uma identificação com foto do proprietário. A campanha está atrelada ao chassi, e não ao estado de emplacamento, então um carro registrado no Espírito Santo pode ser atendido em outra unidade da federação, e muitas vezes as lojas do interior capixaba encaixam o serviço antes das da Grande Vitória.
Ao retirar o carro, guarde a via da ordem com a descrição do reparo. Se o registro da campanha demorar a ser atualizado, esse papel comprova que a convocação foi cumprida.
Sérgio Brandalise
Escreve sobre carro pensando em quem alterna trânsito de cidade com estrada de serra e prefere transformar sintoma vago em anotação útil.